Dirigido por Craig Gillespie, o longa-metragem Supergirl (2026) estreia nas salas de cinemas nesta quinta (25).

Em poucas oportunidades no mundo audiovisual, o termo “baseado em” teve um significado tão palpável quanto o retratado no roteiro de Supergirl. Inspirado na elogiada história em quadrinhos Supergirl: A Mulher do Amanhã — escrita por Tom King, ilustrada com traços maravilhosos pela brasileira Bilquis Evely e colorizada pelo também brasileiro Matheus Lopes —, o longa-metragem dirigido por Craig Gillespie não se prende às amarras da HQ.

Em vez disso, bebe da fonte original apenas o necessário para criar um universo cinematográfico particular. E essa não foi de forma alguma, uma escolha ruim. Precisamos aprender a diferenciar as mídias e aceitar que formatos distintos necessitam de adaptações para criar produtos autênticos em cada uma de suas propostas. A fidelidade não é uma regra inflexível, é justamente a multiplicidade de ideias que cria contornos e formas tão interessantes nas telonas.

O resultado é um filme que assume a alma de um western espacial, rodeado de muita ação, embalado por ótimas canções e encapsulado por uma produção colorida e extremamente bem finalizada. Gillespie entrega uma aventura que é genuinamente divertida, sabendo entreter o espectador com inteligência, sem jamais apelar para a galhofa. O coração do filme, no entanto, bate graças ao carisma do elenco feminino.

Tanto Milly Alcock, assumindo o manto da protagonista, quanto a jovem Eve Ridley, no papel de Ruthye Marye Knoll, encantam e entregam performances magnéticas. Essa química sustenta um dos maiores acertos da obra: a profunda humanização de Kara Zor-El. É fascinante notar que apesar de seus poderes, a heroína soa palpável e falível.

Aliás, é bom destacar que o mundo feminino na produção não gira apenas nas figuras de Alcock e Mary Knoll. O filme possui uma identidade especial, um fio condutor que amarra e engendra todas as pontas, representado pela imensa força feminina que sustenta a obra, uma energia pulsante tanto à frente quanto atrás das câmeras. O roteiro afiado que reconstrói essa mitologia é assinado por Ana Nogueira, dialogando diretamente com a essência visual concebida pela fantástica ilustradora brasileira Bilquis Evely nas HQs. Até mesmo a direção de Craig Gillespie soa como uma escolha de estúdio perfeitamente calculada, já que o cineasta construiu sua reputação recente comandando tramas sobre mulheres complexas e magnéticas, a exemplo de Cruella e Eu, Tonya.

Contudo, a jornada pelas estrelas enfrenta algumas turbulências. Os pontos fracos da produção residem em suas figuras antagônicas. Falta uma certa profundidade ao vilão Krem (Matthias Schoenaerts), que perde força diante da riqueza das protagonistas. O mesmo incômodo se estende à aguardada aparição do Lobo. Não que o personagem seja mal construído pelo roteiro, mas no meu caso, existe um cansaço natural em relação à “mesma cara” e trejeitos de Jason Momoa, independente do papel que ele interprete, enfim, estou indo na contramão da percepção crítica, o grande público pareça estar adorando essa nova adição.

No saldo final, Supergirl se consagra como uma peça fundamental e vitoriosa da nova fase da DC Comics nos cinemas, capitaneada por James Gunn. Com um tom próprio e execução deslumbrante, a aventura de Kara consegue um feito considerável: ser melhor que o próprio filme do Super-Homem, provando que o futuro do estúdio está muito bem guardado nas mãos da Mulher do Amanhã.