Em seu quinto capítulo que estreia nos cinemas, Toy Story 5, sob a direção de Andrew Stanton, diretor de clássicos da Pixar como Procurando Nemo (2003) e Wall-E (2008), prova que a franquia ainda tem muito a dizer, colocando Woody e Buzz diante de seu maior adversário até hoje: as telas.

Existem franquias que continuam existindo puramente porque geram lucro, e há aquelas que sobrevivem porque ainda têm algo relevante a dizer. Quando Toy Story 5 foi anunciado, a pergunta parecia inevitável e a desconfiança, perfeitamente natural: por quê? Afinal, quando o quarto filme terminou, a sensação geral era de que a história havia chegado ao seu destino final, encerrando de forma satisfatória e sem grande glamour a jornada de Woody e companhia. Contudo, após conferir a nova produção, a pergunta que realmente ecoa ao final da sessão é outra: como essa história se tornou tão necessária justamente agora?

Para entender o peso desse retorno, é preciso olhar para o passado. Lembro-me perfeitamente da estreia do primeiro filme da franquia, em 1995. De férias com a família na cidade de Fortaleza, Ceará, desafiei a todos que desejavam saborear o mar e não se enfurnar em uma sala de cinema, enfim, resolveram me seguir e não se arrependeram. Sentado na poltrona do extinto Cine Beira-Mar, naquele saudoso prédio de frente para a orla da praia do Meireles, o que me marcou logo de cara foi o choque visual: a forma como a luz rebatia no capacete de plástico do Buzz Lightyear e a textura inacreditável do tecido do Woody projetadas na tela grande. Fomos às salas preparados apenas para curtir uma animação inovadora, com a computação gráfica rompendo com o desenho tradicional. A surpresa, no entanto, foi que a obra transcendia a novidade estética, ensinando às crianças sobre empatia e, aos adultos, o espelho da vida através de nossos medos, rejeições e frustrações.

Agora, em sua quinta investida, a Pixar entrega o que talvez seja a história mais importante na saga desde Toy Story 3. O diagnóstico inicial do filme é claro: o mundo mudou. A infância mudou. Os brinquedos continuam os mesmos, mas as crianças não.

Em vez de reciclar fórmulas ou buscar um novo boneco vilanesco, a Pixar percebeu que o verdadeiro antagonista da atual geração não é palpável. O grande vilão é a disputa constante pela atenção. Esse é o coração pulsante da trama, que aborda com coragem a crescente substituição das brincadeiras tradicionais por dispositivos eletrônicos. Num mundo dominado por notificações, algoritmos e telas luminosas, Woody, Buzz Lightyear, Jessie e o resto da turma encontram a sua missão mais difícil até agora: convencer uma nova geração de que a imaginação e o lúdico ainda valem a pena.

O maior trunfo de Toy Story 5, no entanto, está na forma elegante com que aborda essa modernidade. O roteiro entende e incorpora a linguagem da internet sem cair na armadilha de parecer um adulto tentando imitar adolescentes de forma forçada. Pelo contrário: as referências e a cultura dos memes surgem de maneira orgânica e hilária, atualizando a franquia para o público que já nasceu conectado, mas sem jamais abandonar o humor afiado e afetivo que sempre caracterizou a série.

Sem entregar spoilers que estraguem as surpresas preparadas pelo diretor, o que se pode afirmar com segurança é que o novo filme está longe de ser apenas uma continuação burocrática; é uma obra de extrema relevância cultural. A animação consegue instigar o debate sobre o mundo de hoje de uma maneira que dialoga perfeitamente com pais e filhos. Esse é o tipo de abordagem madura que costuma envelhecer bem e que certamente vai gerar longas conversas após a sessão. Divertido, inteligente e emocionante, Toy Story 5 resgata sua habilidade máxima em entreter, lembrando a todos nós de que brincar, no sentido mais puro da palavra, continua sendo fundamental.