O cantor e compositor Lenine sempre foi um dos artistas que quis entrevistar, finalmente aconteceu e foi muito legal fazê-la.

Fomos recebidos pelo músico no camarim da sala Villa Lobos, antes do show, e o bate papo teve como pauta processo de composição, a arquitetura do show, diversão e estado de paciência. Você vai se divertir conhecendo mais sobre o mestre Lenine.

Gostaria de agradecer Lenine por toda a simpatia, como também, a produção do artista, em especial ao management KK Mamoni por todo apoio, e estendo os agradecimentos às assessorias de comunicação (do músico e a local) e ao produtor local do evento, Joel da Lux Produções.

A passagem de som foi divertida de acompanhar e o show fenomenal (clique aqui para ler a resenha). Chega de papo e vamos ao que interessa, a ENTREVISTA com o LENINE:

[NRDR] Como foi o processo de composição de Chão?

(Lenine) O processo mesmo, a mecânica, mudou depois que eu fiz a trilha de Breu com o grupo Corpo. O fato de ter entrado no estúdio sem ter nada foi muito estimulante, até então quando eu ia fazer um disco, metade dele era de um material produzido, como estou compondo o tempo todo, é natural que eu vá fazendo canções e essas canções vão ficando aí, na hora que eu tinha desejo de fazer um disco, pedaço de repertório já estava composto.

Depois da experiência com o Corpo mudou, então o Labiata e Chão tem essa característica. Primeiro eu tive o desejo de fazer um disco, depois eu fui atrás das composições.

 

[NRDR] Eu tive essa impressão, que o Chão de alguma forma, dava continuidade ao Labiata.

(Lenine) Ele tem, e essa peculiaridade de ser honesto com a minha cabeça, hoje, agora, no tempo real. Acho que o show também reafirma isso. O Chão que teve esse diálogo com a música concreta do Pierre Schaeffer, John Cage, do Zappa, do Hermeto Pascoal, no show ele foi além, a gente se apropriou do surround e poder experimentar esse tipo de espacialidade, numa audiência assim, no teatro, está sendo muito instigante pra gente, então o Chão se adequou muito a esse tipo de mecânica sonora, esse tipo de arquitetura sonora, porque lá o disco já tinha essas características, e ele não tinha bateria, ele não tinha percussão e os sons do cotidiano é que cumprem essa função no disco. A sacada de vamos botar isso no surround foi bacana.

[NRDR] É interessante você tocar nesse assunto, porque O Rappa está com esse mesmo trabalho, lá junto com o Vidal, trabalhando no surround.

(Lenine) É, sim.

(KK Mamoni – produtor do Lenine): Mas é diferente a concepção, no show deles é som nas quatro caixas o tempo todo, não é uma coisa que circula.

 

[NRDR] Não estão circulando o som?

(KK Mamoni) Não, na verdade é só o P.A. lá atrás.

(Lenine) Na verdade é o P.A. lá atrás, e o técnico que brinca eventualmente, sobe aqui, sobe ali. A gente não, cada música tem uma espacialidade.

 

[NRDR] Então vocês resolveram subir um nível?

(Lenine) É, o sarrafo tá mais alto. <todos caem na gargalhada>

(KK Mamoni) Não, diferente, o conceito é diferente.

(Lenine) É só o conceito de usar, e a adequação. Porque no Chão, o fato de realmente não ter bateria e percussão, eu pude descolar das canções esses elementos.

(KK Mamoni) E o Chão foi concebido assim, é diferente d’O Rappa. O Rappa fez o show e adaptou. O Chão se você ouvir o disco no fone você vai ter a mesma sensação. A gente quis levar para o espectador do teatro a mesma sensação de você botar o fone na sua casa e ouvir.

(Lenine) Foi tudo binaural.

 

[NRDR] Inclusive o Chão eu escuto no fone, comprei no iTunes quando saiu.

(Lenine) Olha aí, então você percebeu que os espaços estão ali, circulando na sua cabeça. A gente gravou no binaural justamente pra isso. Ele já vinha com esse DNA, dessa possibilidade real da gente explorar uma experiência sensorial diferente na audiência. Não é quatro mandados de som, não, você vai que tem a hora que “A Rede” é da esquerda para a direita, o “Trânsito” é em cruz, sabe, os passos é circular, sabe, as cigarras é um em cada um, para criar esse ambiente, teve assim um desenho sonoro para cada canção.

 

[NRDR] E essa questão da inspiração, da influência, você tem saco para escutar coisa nova?

(Lenine) Lógico, eu tô sempre num débito muito grande porque recebo muito disco, muito disco, aí eu tenho sempre uma pilha de 30 a 40 CDs por ouvir. Eventualmente, quando algum amigo me dá, ele fura essa fila, aí vai pra frente. Daí já aconteceu de ouvir e ligar para alguém sobre um disco que achei bacana, aí o cara vira e diz: Pô, já lancei outro. Eu tinha levado mais de um ano pra ouvir. É um pouco frustrante, mas eu não tenho tempo real para ouvir, mas eu ouço. Sou um cara atento, acho que eu tenho orelha de morcego, <mais gargalhadas> acho que é o que eu tenho de melhor, uma orelha de morcego.

 

[NRDR] Mas você é um cara de trocar as canções do seu iPod?

(Lenine) Melhor do que isso, até que agora nem tanto, pois a gente mudou a formação da equipe, até a mudança do Chão, o grupo todo, cada um tem seu iPod e a base (dock) é comum, e a regra é: o cara tem que colocar no shuffle e tem que saber o que está tocando, senão perde a vez. <mais gargalhadas> Não adianta você ter a informação e não sabe-la, então isso é bacana. E eu adoro o shuffle. <mais risadas>

[NRDR] E o Jr. Tostoi, o grande parceiro?

(Lenine) É o parceiro a muito tempo né? O Chão tem muito disso, e tem esse dado, foi produzido por mim, pelo Tostoi e pelo Bruno Giorgi. Bruno é meu filho segundo. Bruno talvez seja quem tem a maior culpa nessa resolução sonora, acho que o relevo sonoro que a gente criou, deve-se muito a mão dele. Até porque no primeiro momento, quando eu comecei a gravar as canções, e foi nesse momento que eu descobri o caminho, como no vazamento de um canário da vó dele, portanto minha sogra, o estúdio nele é na garagem da vó.

Então fui gravar “Amor é Pra Quem ama” e a porta estava entreaberta e o passarinho <Lenine imita um pássaro>, e ele chamou a atenção porque não estava só cantando no tom, mas ele também evoluindo com o arranjo que eu estava fazendo. Bruno disse: Pai vamos assumir isso aí. E aí botamos um telefunken valvulado dentro da gaiola e eu disse: canta menino. <risadas>

E o que você ouve no disco, que eu acho que isso que é o importante, as pessoas não perceberam. Todos esses elementos sonoros não tem interferência, é um take, então o que você ouviu é o canto dele sem edição.

 

[NRDR] E você fez isso com frequência, é canto do pássaro, são os passos no início, batida do coração.

(Lenine) Sim, tudo fez parte da composição, a gente aproveitou a arritmia do coração do Bruno. Eu construí a canção em cima, então esse é um eletrônico orgânico, por isso essa coisa que parece uma dicotomia, mas não é, foi usada de uma maneira muito orgânica todos esses elementos concretos. Acho que isso que difere, e na hora que transpomos isso para o palco é que ganhou outra dimensão, porque aí tudo é tempo real, eu estou fazendo os loops na hora, então depende do que eu faço na hora.

Cada dia o show é diferente, a gente desenhou uma linha motriz, onde a gente sabe mais ou menos as formas das musicas. Isso é muito bacana quando se está criando, porque é um estado pleno de diversão. Estou muito feliz, muito orgulhoso, me divertindo muito porque realmente é uma sensação diferente. É novo para todos da equipe. Então foi uma loucura estudar isso, lancei o disco em outubro e estreei agora a duas semanas. A gente levou um tempo para projetar essa arquitetura, pra gente ensaiar isso, moldar esse relevo sonoro, isso levou tempo.

(KK Mamoni) Adaptar as canções.

(Lenine) É! Veja só, o Chão tem dez canções, o show tem 22. Ou seja, 12 outras canções ingressaram nesse universo e também sofreram essa adaptação para um trio de cordas. Lógico, tá tudo trigado, tá todo mundo ligado, e isso está sendo muito estimulante pra gente porque é novidade. E novidade é sempre bacana e estimulante. Eu não gosto muito de ficar na zona de conforto.

 

[NRDR] Você é um viciado em Internet? Rolou aquela brincadeira do meme da Luiza em seu show.

(Lenine) Não, ali foi viral, eu estava fazendo um show em João Pessoa, a campanha havia sido lançada um dia antes e teve uma matéria no jornal da Globo, todo mundo tinha visto aquilo, e quando eu vi que milhares de pessoas estavam brincando, eu ia fazer o show na cidade, aproveitei o viral e repeti: tá todo mundo aqui, menos a Luiza que está no Canadá. <gargalhadas>

[NRDR] Sua equipe é muito afinada, todo mundo trabalhando como um relógio. Vi o KK Mamoni ontem na sessão de autógrafos, enviando fotos pelo instagram.

(Lenine) É, tem uma turma lá velho, e o que eu sei fazer melhor é agregar cara, acredite. Quando eu vi o Paulo Pederneiras, que fez a direção de arte, assinou luz, cenário, falando sobre a estreia do espetáculo, e que toda vez que ele vai estrear alguma pensa: é agora que as pessoas vão descobrir que sou um picareta. <muitas gargalhadas> Achei tão lindo, e dito por Paulo Pederneiras!

Então essa é uma sensação comum para quem cria, aquela certa incógnita, como vai bater na pessoa, como você vai tocar na pessoa. E isso é sempre muito bom cara, eu gosto é disso.

 

[NRDR] E o que você faz para se divertir? Esquecer um pouco essa loucura, essa correria.

(KK Mamoni) Olha lá. O produtor aponta para umas plantas em cima da mesa

(Lenine) Hoje as 10 horas da manhã eu já estava na Ceasa, já tinha contatado meus amigos para pegar umas plantas, estava atrás de um xilodromo, duas walkerianas, tava atrás de dois bulbo firmes. Eu já sabia que um cara tinha, já tinha encomendado. Essa é minha grande diversão, minha memória. Cada lugar que eu vou eu pego as plantas endêmicas do lugar e isso gera um arquivo.  O arquivo da planta, da floração, de onde veio, tipo de substrato e onde eu consegui, tá associado aos shows. Eu tenho a memória dos shows em forma de planta cara.

Muito bom né? Isso deu um sabor todo especial a coisa de viajar. Tem um momento que viajar vai ficando mais difícil. A gente vai ficando mais…<Lenine simula na poltrona uma murchada> Né não? É natural da vida. Bicho, essas plantas mudou tudo cara! Eu quero ir nos lugares mais estranhos, para pegar as plantinhas mais estranhas, ainda não catalogadas. Eu gosto do endêmico, a minha música já é muito híbrida, aí na história das orquídeas, eu sou muito só espécie. <gargalhadas>

 

[NRDR] Então você nem pode tocar no Amazonas? <gargalhadas>

(Lenine) Já fui várias vezes e já trouxe muita coisa. Eu tenho uma touceira de acacá no cianai, uma das únicas flores azuis. O azul é uma cor muito difícil de encontrar na natureza. Só tem duas plantas na Amazônia quase azuladas, são duas acacallis, não vou ficar vomitando nome não, mas elas duas só ocorrem lá, e eu tenho!

 

[NRDR] Você mantém essas plantas na sua casa no Rio?

(Lenine) Eu tenho um orquidário de responsa meu irmão, você não está entendendo. <gargalhadas> Eu fiz uma coisa bacana. Mesmo!

 

[NRDR] E com essa calma que você deixa transparecer no palco, nas entrevistas, existe algum momento que você tem que cantarolar “Paciência”?

(Lenine) O tempo todo, não deixe se enganar pela minha aparência. <gargalhadas> É uma luta diária, o ser humano tem isso. A nossa grande dificuldade é desligar o dialogo interno. A gente precisa. É uma válvula de escape e a gente não consegue, então é um exercício diário ter um pouco mais de calma. Isso não quer dizer que eu a tenha <risadas> mas eu procuro, eu persigo. <risadas>

 

Crédito das fotos: Cristiano Porfírio

Eu e mestre Lenine. Clique de Juliana Caribé

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