Em primeiro lugar, eu agradeço ao narotadorock.com por essa oportunidade. Não é todo dia que você recebe uma missão de falar sobre os 30 anos do lançamento do primeiro disco de uma banda da qual você tanto gosta.Há algo entre prazeroso e masoquista em ter como banda preferida alguma que não pertença ao chamado “primeiro escalão” do rock. Para que se entenda bem, é muito fácil se dizer fã dos Beatles, até para quem não curte o estilo. Mas vá dizer que você é fã do Fields of the Nephilim, por exemplo. Vão te olhar com um misto de pena ou de falsa intelectualidade, como se conhecessem a fundo a banda.

Bem, essa introdução foi para tentar passar ao leitor o que sentia um cara que vibrava com um vinil de nome esquisito, “Cidades em Torrente”, lançado em 14 de março de 1986, de uma banda com um nome ainda mais estranho: Biquini Cavadão (se bem que nomes estranhos não faltavam àquela época, vide João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, Afrodite se Quiser, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens e Os Paralamas do Sucesso). Enquanto meus amigos vibravam com RPM, Titãs, Legião Urbana e os próprios Paralamas, lá estava eu ouvindo tudo isso e mais aquele álbum de capa sombria, imagens esvanecidas e integrantes com cara de nerds (ou “CDFs”, gíria da época).

folderA única música do disco que tocava nas rádios naquele verão de 1986 era “Tédio”, que havia sido lançado em compacto junto a “No Mundo da Lua” (também voltaria a ser registrada no Cidades em Torrente), em 1985, quando a banda ainda nem guitarrista tinha e Herbert Vianna emprestou seu talento para esse primeiro registo. Em tempo. Herbert também foi o “responsável” pela ideia do nome Biquini Cavadão. Mas não o culpe. Ainda foi melhor do que as ideias dos próprios integrantes, coisas como “Hipopótamos de Kart”. Abençoado Herbert!

Voltando a “Tédio”, foi a música que chamou minha atenção, com sua batida marcada e a voz conformada de Bruno Gouveia, a indicar o desgosto de uma adolescência amargurada, à la mal-do-século ultrarromântico, sem expectativas. Era tudo com o que eu me identificava, já que escutava The Cure, Bauhaus e Joy Division, além do citado Fields of the Nephilim. A nítida influência do pós-punk inglês já saltava aos ouvidos na primeira faixa (“Múmias”), com um sino de igreja estourando sobre o teclado sombrio de Miguel Flores da Cunha e um ribombar da bateria de Álvaro Birita que irrompiam até os primeiros versos, uma bênção para rebeldes deprimidos: “Bem-aventurados sejam aqueles que amam a desordem/Nós viemos a reboque e este mundo é um grande choque”. Gozo supremo logo de cara. No refrão, Renato Russo, da recém-guindada ao sucesso Legião Urbana divide os vocais com Bruno. E, mais uma vez, agora com guitarras adicionais, o amigo Herbert Viana aparece numa gravação do Biquini. Que conjunção de gênios!

Depois disso, um rockão de menos de dois minutos, despojado, com “sensualismo aprés et avant garde”, que é aberto com um baixo marcante de André Sheik (hoje não mais pertencente à banda, tornou-se escritor e artista plástico): “Hotel”. Mal você se recupera da originalidade e das referências intelectuais, inspiradoras para quem queria algo mais que os risos simples (e deliciosos) de Blitz e Ultraje a Rigor, vem uma quebrada original e deliberada: o primeiro dos quatro instrumentais do disco. “A grade surda” é executada só no violão de Carlos Coelho, o guitarrista oficial do grupo desde o lançamento do compacto do ano anterior. Seria uma característica biquiniana nos primeiros dois discos essa introdução de vinhetas musicais, como eles chamavam, para dar um tom ainda mais diferente a uma banda que já era alternativa em relação às demais de nosso cenário.

BiquiniVolta-se ao clima sombrio e “tedioso” do início do disco com “Domingo” e sua angústia: “Acordo tarde, nada que eu possa ver, nem que eu possa fazer/Depressão de meio-dia, esperando o dia anoitecer”. Lindo. E com um solo de violino, o que dava mais um diferencial no estilo dos caras. A letra e o som de “O drama” são a marca definitiva da influência do The Cure nesse disco. É quase uma nova “Inbetween Days”. A seguir, “No Mundo da Lua”, que viria a ser o segundo hit da banda, e… para encerrar o lado A do vinil com uma boa dose de humor, a descompromissada “Cadela Pornográfica”.

O lado B abre com um petardo contra o militarismo, “Reco”, que facilmente virou hino para quem repudiava o militarismo do qual acabáramos de sair. E mais uma quebra acontece, com a singela “Timidez”, que explora mais um tema comum para adolescentes com o perfil da banda: a falta de jeito para lidar com as relações. E o incrível é que, entre os hits menos radiofônicos do grupo e ainda presentes em seu repertório, esse ainda é uma dos mais cantados a plenos pulmões por todas as gerações. Sinal dos tempos, em que o mundo virtual se sobrepõe ao contato e ao diálogo olho no olho.

A reta final do álbum se inicia com mais um instrumental, “Teu Barato”, seguida por “Caso”, de  letra forte  que o tema da infidelidade sugere, e a participação muito especial do guitarrista Celso Blues Boy. O piano clássico, influência forte em Miguel, aparece na vinheta “O Drama II”. Um toque de cultura tradicional. Mais um elemento dessa mistura de seriedade, humor, popular, erudito, MPB e rock da banda. Tudo para culminar na faixa final, que parece apontar para a síntese de uma banda que buscava, à época, a melhor rota para seu trabalho: “Inseguro de Vida”. Mas não houve, ao contrário do que pode parecer por esse comentário, insegurança por parte da banda, na construção de seu perfil. A linha intelectual e reflexiva com sonoridades múltiplas e estranhas já estavam determinadas pelos sucessos de “Tédio”, “No Mundo da Lua” e “Timidez”.  E tudo isso eclodiria no álbum seguinte, “A Era da Incerteza”. Mas aí já são outros 30 anos de outra história, de 1987, a ser relatada em 2017…

Videoclipes:

Timidez

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No Mundo Da Lua

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Tédio

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Post de Roderic Szasz

Roderic Szasz Já publicou 5 posts nesse site.

Amante das artes e da cultura de forma geral, mas com predileções, como todo ser humano: rock, literatura do século XIX, filmes de terror (de a a Z), HQs, anos 80... Respeito e valorizo, especialmente, o poder das palavras e a importância delas em nossas vidas. Saudações!!